Nunca pensei na forma da qual estava acostumado a descobrir as coisas. Certas coisas não me impressionavam mais. Não era legal estar tão convicto do que acontecia na vida de Gabriele. Cada vez que chegava um novo e-mail, meu coração incendiava em prantos. Percebi que ter uma simples noite de sono tranquilo estava ficando assustadoramente impossível. Suas fotos eram quase nuas, em posições bem eróticas, tentando sempre mostrar o corpo lindo que ela tem, só que de uma forma mais sexy que o comum. Quando bem tirada as fotos, elas convencem, impressionam e até nos fazem delirar. Era o caso dele, acredito. Acho que a mania dele pedir tantas fotografias dessa forma só teria um único sentido, eles já transaram há certo tempo e tem grande afinidade em seus corpos.
Eu não consigo entender de forma alguma o que se passa na mente dela. Poxa, todas as palavras de amor, os momentos, os gestos, seu singelo toque em meu corpo apenas significava isso? Era só sexo? Estou tão confuso agora que já nem sei se tive sorte de terminar meu namoro por descobrir quem ela é, ou por perder a oportunidade de transar pela primeira vez... com uma garota linda e que supostamente me amava.
Nos momentos deles, as oportunidades a sós, segundo o que lí, pareciam bem quentes. Eles se enrolavam bruscamente nesse "romance maravilhoso", beijava aqui e acolá no corpo, ele dizia certas coisas eróticas no ouvido dela, que fazia ela colocar a mão dentro da calça dele, pegar no negócio dele até faze-lo... bom, até fazer isso. Era tão confuso quanto a ideia de fazer isso, ela já chegou a pânico em um dos e-mails por pensar que tinha engravidado. O pior de tudo foi a expressão dela, comemorando por não ter trazido ninguém a este mundo... francamente!
Eu já estava ficando louco, as imagens deles insistiam em permanecer em minha mente. Uma forma tão angustiante e sadomasoquista tomava conta da minha imaginação. Uma mistura de tudo o que perdi e também de derrota, por ser o único que parecia a amar alguém na relação. Eu queria esquecer e desfazer o recebimento dos e-mails, mas isso seria tão constrangedor que decidi ficar calado. Eu tinha tudo nas mãos se quisesse aprontar algo pra cima dela, mas não quis. Aprendi a não sacrificar com ódio as relações em que tanto disse que amei.
Não conseguia mais ficar em casa, sem olhar a internet. Eu já estava sem comer e a única coisa que bebia era água gelada para tentar me acalmar. Foi então que resolvi sair um pouco, andar... tentar ver toda a minha vida de uma outra forma, com olhos de quem superou. Meus pés me levaram ao barzinho que ficava duas esquinas depois. Eu não fiquei melhor ao ver centenas de amigos felizes, rindo e bebendo sem parar. Ao som de boas músicas dos anos noventa, todos pareciam aventureiros e prontos para qualquer lance. O mais animado era o cara conhecido apenas por Certeirinho, graças as suas boas jogadas de sinuca. Os olhares mais concentrados e fatídicos das garotas também eram dele.
Eu reparava tanto que quando notei automaticamente já estava sentado próximo a mesa grande do bar, com a carteira nas mãos no balcão e com garçom esperando o meu pedido. Não esperava beber tão cedo, eu ainda procurava saber o que eu estava fazendo alí sozinho, sem ninguém... apenas desesperando um amor destroçado em mágoas, afim de amargurar as lembranças contidas em sua glória. Com tanta tristeza no coração piorei minhas reflexões em um bom Dry Martini Clássico. Ao ver o garçom preparar com tanto gosto o meu apreço solitário da noite, dei uma rápida saída para assistir a bela interpretação da música The First Tast, de Fiona Apple. Seu refrão forte, marcou a minha noite.
"Dá-me o primeiro gosto... deixe-o começar, o céu não pode esperar para sempre, querido... apenas comece a caçada. Vou deixar você ganhar, mas você deve se esforçar..."
Não consegui mais segurar as lágrimas e senti fundo a solidão me consumindo. Precisei tomar meu drink para sentir melhor minhas energias. Já estava pronto meu Martini a base de London Dry Gin misturado a vermute seco, servido numa bela taça de haste fina, aos cuidados do barman em colocar no freezer por um bom tempo, para não colocar gelo, maculando a bebida, que estava maravilhosa com o twist de limão, cortado e bem retorcido. Apreciei, senti os beijos de quem tanto amei. Mesmo fora de sintonia, senti o desprezo amargo, como três gotas de limão e sal na borda da taça. Chorei sem expressar dor. Estava calmo e pensativo, dessa vez, sem buscar respostas, apenas relembrando alguns momentos. As mensagens de madrugada, os ritmos envolventes no quarto e tantas outras memórias ternuosas.