Capítulo 1 - O primeiro plano

Realmente eu gosto de viajar de ônibus. Não há nada tão bom quanto sair quatro horas da madrugada e observar o verde compondo o cenário perfeito do clarear do dia. Você pensa que a vida é uma existência simples e que não há motivos para sair exagerando por muita coisa. Quando vemos as situações mais malucas disso, percebemos o quão perdido estamos com a nossa natureza, que nos convida a refletir e a entender nossos problemas.

Tipo, eu não era social, mas eu era popular. Todo o mundo me conhecia. Minha mãe costumava contar tudo o que acontecia na nossa casa para toda a vizinhança. Eu nunca entendi a forma dela fazer amizades, não precisava deixar a minha rua toda de olho em mim. Quando ela me dava carão, era aos gritos para que todos soubessem que era comigo. Todos mesmo, até os colegas que jogam bola comigo, uma vez perdida, ao cair da tarde. Fora que, meus apelidos carinhosos eram tão gentis... Sacarmo a parte, tenho apreço por essa vida estranha.

Pensando assim, até parece trágico. Mas não, não era. Eu sempre gostei disso, uma vida reservada onde somente eu conhecia os meus segredos e só descobriam algo de mim, se eu realmente permitisse, e olhe lá. Por exemplo, na minha rua havia alguém que eu queria muito conhecer. Alguém além de Melissa, que fosse possível contar o que acontece com a Melissa, rs. Era uma menina estranha que morava seis casas depois da minha. Usava um anel de ouro muito simples, roupas laranja com verde e tinha um cabelo meio bagunçado.

Mas eu era tão tímido. Minhas calças e blusas de uma cor única e fúnebre não chamava atenção de ninguém. Nem de minha mãe, que desistiu de comprar roupas legais que eu nunca usava. Eu achava aquilo palhaçada demais. Estava próximo do meu aniversário e tudo o que queria era conhecer essa pessoa.

Nem o nome dela eu sei. Eu sou besta. Estamos de férias do colégio e em plenos dezessete anos eu não vivi muita coisa. Nunca fui para uma colônia de férias, não participo de torneios de futebol... nem mesmo tive aniversários decentes. Minha mãe costumava fazer o meu aniversário para as amigas dela beberem bastante lá em casa, ao som de músicas bregas terríveis. Eu acho que preciso urgentemente de umas boas amizades, pessoas para conversar, trocar ideias, enfim... essas coisas. Eu preciso mesmo conhecer essa menina. Acho que vou bolar um plano.

Cheguei em Belo Monte e está tudo igual. Afinal, o que eu espero que mude em duas semanas?